Ações e relevância do sistema paranaense de proteção vegetal

Marcílio Martins Araújo

Resumo


O Brasil se destaca na produção agropecuária mundial tornando-se um importante produtor de alimentos e ainda alavanca um grande ritmo de crescimento no setor, o qual está baseado na aplicação de tecnologias e insumos apropriados às condições e diversidades de solos e climas brasileiros. Isso se reflete tanto na produção das lavouras como da pecuária e se traduzem em ganhos de produtividade. Assim, o Brasil deixou de ser um país importador de alimentos e transformou-se em um expressivo exportador, com uma pauta diversificada de produtos agropecuários.

Mas, nem tudo é positivo nessa balança, com o fluxo de exportação e aumento expressivo de comércio e do trânsito de produtos, e ainda de pessoas, aumentam-se consideravelmente os riscos de introdução de novas pragas agrícolas em território brasileiro. Essas introduções representam um grande risco à produtividade, as quais podem provocar grandes prejuízos e colocar em risco toda cadeia produtiva de uma cultura ou produto. Nesse contexto, existe uma definição que diz que as espécies de pragas exóticas invasoras são aquelas cuja introdução e dispersão ameaçam a diversidade biológica de um determinado ambiente ou a sua produção agropecuária.

O desenvolvimento do setor agropecuário é alicerçado no uso de novas tecnologias e no empreendedorismo do produtor brasileiro. Tais fatores permitiram que a produtividade tivesse um aumento de cerca de 305%, nos últimos anos. Porém, há um contraste, ao mesmo tempo em que a agricultura se desenvolve e se moderniza também se submete ao ataque de um grande número de pragas nas culturas. Isso se deve ao fluxo constante de produtos e de pessoas entre os países, o que permite que as pragas, de todos os tipos, também se desloquem e atinjam diversas culturas de interesse econômico.

Recentemente pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) demonstram que a ocorrência de pragas nas culturas de grande expressividade no Brasil, como o milho e a soja, atingem diretamente a sua produção, fato que afeta os preços de diversos derivados que são empregados nos diferentes setores da economia, como o alimentício, industrial, têxtil e na cadeia de produção de proteína, dependentes de alimentos derivados, como avicultura, bovinocultura, piscicultura, entre outros. Isso afeta diretamente a vida humana e ainda pode resultar em imposições de barreiras para produtos agrícolas na exportação. A própria pesquisa sobre uma nova praga agrícola necessita de elevados investimentos para sua caracterização, avaliação e indicação de formas de monitoramento e controle.

São inúmeras as ameaças fitossanitárias que podem afetar o Brasil. Atualmente, segundo estudo do Ministério da Agricultura e do Abastecimento e Embrapa, existem mais de 500 espécies ou gêneros oficialmente regulamentados como pragas quarentenárias ausentes. Dentre essas foram priorizadas 20, das quais 5 possuem risco Muito Alto e 15 risco Alto de introdução. As pragas são consideradas prioritárias pelos danos que podem causar à economia do país, pelas culturas que afetam e, principalmente, pela proximidade de ocorrência dessas com as fronteiras.

Assim, os órgãos de Defesa Sanitária Vegetal devem estar preparados para o enfrentamento dessa problemática e possuir o conhecimento técnico dos riscos inerentes a entrada de pragas, além da instrumentação necessária, de forma a precaver-se.

O Paraná, que corresponde apenas 2,3% do território nacional, destaca-se na produção de diversos produtos do agropecuários e com participação expressiva no agronegócio e na composição do Valor Básico de Produção do Estado. Representa, ainda, a 4ª economia do país, com cerca de 6,42% do Produto Interno Bruto nacional, sendo o 2º maior produtor de grãos, com destaque para os produtos do complexo soja, milho e trigo, além de carnes, produtos florestais, sucroalcooleiro e café.  Estima-se que a safra de grãos do ciclo 2018/19 deve atingir 37,6 milhões de toneladas e com expectativa de superação em 6% da safra anterior.

Com o aumento do comércio internacional e dos riscos de introdução de novas pragas, fazem-se importantes alguns questionamentos: como precaver-se de suas entradas? uma vez introduzidas, como proceder para evitar a sua disseminação? quais as possibilidades de realizar a erradicação? caso se estabeleça, como fazer para conviver e manter os sistemas produtivos competitivos e sustentáveis?  Vale lembrar que o estabelecimento de uma nova praga culmina com ações para o monitoramento e controle, com a elevação do custo de produção. Tudo isso ainda seguido do aumento do uso de insumos, contaminação do ambiente devido as aplicações de agrotóxicos e a possibilidade de restrições de mercados de exportação.

O Paraná possui uma estrutura de Defesa Agropecuária com mais de 40 anos de experiência no setor e conta com 20 Unidades da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), que estão distribuídas por todo o Estado. Possui experiências no monitoramento de diversas pragas associadas às culturas de expressão econômica no Estado. Nesse contexto, a experiência no monitoramento e controle de pragas demonstrou que há necessidade de integração da defesa com os setores produtivos, pesquisa e extensão para traçar ações de enfrentamento de uma determinada problemática. Tem-se como exemplo a fiscalização e o monitoramento da ferrugem asiática da soja, com legislação estadual própria integrada às normativas nacionais. Outro exemplo bem-sucedido da defesa agropecuária é a erradicação de praga Cydia pomonella do Brasil, o qual somente foi possível com a integração dos setores, a adoção de medias legislativas e muito trabalho das instituições ligadas à Defesa, aliada a permanente vigilância, fatos que permitiram a conquista do status de praga erradicada. Outro importante caso de integração dos setores para a busca de uma solução se deu para a praga Helicoverpa armigera no Paraná. No qual o setor produtivo financiou a pesquisa realizada pela Embrapa-Soja e a Adapar realizou o monitoramento e as coletas dos insetos nas lavouras de soja no Estado. Desse trabalho conjunto concluiu-se que as lagartas coletadas se tratavam mesmo da praga em questão, mas que os agentes naturais de controle biológico e os inseticidas já presentes no mercado eram suficientes para garantir o seu controle. Tal conclusão subsidiou as ações da defesa estadual, para que não se estabelecesse o status de emergência fitossanitária, e os produtores continuarem a monitorar e controlar a praga com as ferramentas disponíveis no mercado.

A Adapar conta, ainda, com estrutura de Fiscalização do Trânsito Agropecuário, a qual é composta por 33 Postos fixos, que possibilitam identificar a origem e o destino de produtos que adentram no Estado. Possibilita também identificar e monitorar a entrada máquinas e implementos e a identificar possíveis focos de introdução de pragas. Atualmente, tem-se como uma grande preocupação a entrada do Amaranthus palmeri, em máquinas agrícolas, pois trata-se de uma praga agressiva e com possibilidade de causar muitos danos ao setor produtivo do Estado e já se encontra presente no Estado do Mato Grosso.  

Portanto, a Defesa Agropecuária Paranaense desempenha um importante papel junto ao setor produtivo, pois trata-se de um Estado com destaque na produção agrícola, com cerca de 40% do seu PIB estimado para o setor em 2019. Assim, as ações tomadas pela Adapar em parceria com os demais setores da produção, pesquisa e extensão buscam proteger o patrimônio produtivo agrícola e manter a estabilidade econômica e social do Estado, no qual se busca evitar a introdução de novas pragas e o monitoramento e o controle das que já se encontram presentes.  Dessa forma, a Adapar desempenha ações permanentes que visam contribuir para a proteção econômica agrícola paranaense.

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Referências


BRASIL. Portaria Mapa nº 131, de 27 de junho de 2019. Diário Oficial da União. MAPA: Brasília, 2019. http://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-131-de-27-de-junho-de-2019-187158759. Acesso em: 25 jun. 2019.

EMBRAPA. Priorização de Pragas Quarentenárias Ausentes no Brasil. Embrapa: Brasília, 2018. Disponível em: file:///D:/users/mmaraujo/Downloads/Livro-PragasPriorizadas-1ed-2018-Ainfo-ver-final-1%20(1).pdf. Acesso em: 20 jun. 2019.

EMBRAPA. Brasil lista 20 pragas agrícolas mais importantes que ainda não chegaram ao País. Brasília: Embrapa, 2017. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/28666392/brasil-lista-20-pragas-agricolas-mais-importantes-que-ainda-nao-chegaram-ao-pais. Acesso: 20 jun. 2019.

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SUGAYAMA, R.L. et al. Defesa Vegetal – Fundamentos, ferramentas, políticas e perspectivas. Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária: Belo Horizonte, 2015.


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