Manejo de doenças em cultivos extensivos

Cláudia Vieira Godoy

Resumo


A área semeada com a cultura da soja aumentou muito no Brasil nos últimos 20 anos, passando de 12,9 milhões de ha em 1998/99 para 35,8 milhões de ha em 2018/19 (CONAB, 2019), com grande expansão para as regiões tropicais. Junto com a expansão da área semeada, houve o aumento no número de doenças que incide na cultura em decorrência do cultivo extensivo, ausência de rotação de culturas, exposição a condições climáticas tropicais, com precipitações mais frequentes, favorecendo o desenvolvimento de doenças e a também a introdução de novos patógenos nesse período.

Entre as estratégias de manejo recomendadas para a cultura, a incorporação da resistência genética nas cultivares é uma das que tem reduzido perdas com doenças como o cancro da haste (Diaporthe aspalathi), a mancha olho de rã (Cercospora sojina), a podridão parda da haste (Cadophora gregata), a pústula-bacteriana (Xanthomonas axonopodis pv. glycines), a podridão radicular de Phytophthora (Phytophthora sojae), a necrose da haste da soja (Cowpea mild mottle virus - CPMMV), as nematoses (nematoide de cisto da soja - Heterodera glycines e nematoides de galhas - Meloidogyne spp.) e também a ferrugem-asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi), embora essa última ainda com número limitado de cultivares com genes de resistência (EMBRAPA, 2013).  As cultivares resistentes são a estratégia mais econômica de controle para o produtor, uma vez que a tecnologia está agregada ao valor da semente. No entanto, a variabilidade natural dos patógenos faz com que o trabalho de melhoramento seja contínuo.

A ferrugem-asiática da soja é considerada uma das principais doenças da cultura em função do seu potencial de dano e por estar presente em quase todas as regiões produtoras. Foi relatada no Brasil na safra 2001/02 e houve uma intensificação na utilização do uso de fungicidas na cultura após sua introdução. O uso intensivo de fungicidas para o seu controle ao longo dos 18 anos exerceu forte pressão de seleção para isolados menos sensíveis do fungo aos principais grupos de fungicidas sítio-específicos, sendo relatadas populações menos sensíveis aos fungicidas inibidores da desmetilação (IDM), inibidores da quinona externa (IQe) e inibidores da succinato desidrogenase (ISDH) no Brasil (SCHMITZ et al., 2014; KLOSOWSKI et al., 2016; SIMÕES et al., 2018). Além da P. pachyrhizi, isolados de Corynespora cassiicola que causa a mancha-alvo, de Cercospora kikuchii causador da mancha de cercospora e de Colletotrichum truncatum que causa a antracnose, menos sensíveis a fungicidas também têm sido relatados no Brasil (MELO, 2019).

Políticas públicas, como a implantação do vazio sanitário da soja a partir de 2006, onde é proibida a semeadura durante a entressafra por um período que varia entre 60-90 dias e é obrigatória a eliminação de plantas de soja voluntárias, bem como a semeadura de cultivares de ciclo precoce tem auxiliado no escape da ferrugem-asiática em muitas regiões. A semeadura após o final do período do vazio sanitário com cultivares precoces foi incentivada com o aumento de área de milho de segunda safra de verão, que cresceu com a redução do ciclo das cultivares de soja. A área de milho segunda safra passou de 23% em 2001/02 (12,3 milhões - área total de milho) para 72% em 2018/19 (17,2 milhões - área total de milho). Além do milho, no Mato Grosso, em Goiás e no Maranhão, a sucessão soja-algodão tem aumentado. Embora essa sucessão beneficie o controle da ferrugem-asiática com o escape, traz outros problemas como no caso da sucessão soja-algodão que possuem a mancha-alvo como doença comum nas duas culturas e são manejadas com os mesmos fungicidas. As populações resistentes do fungo C. cassiicola a fungicidas ISDH têm sido encontradas nessas áreas, em decorrência do excesso de aplicações. Fungicidas multissítios, como mancozebe, clorotalonil e fungicidas cúpricos, apesar de não apresentarem alta eficiência de controle e terem baixa atividade residual, uma vez que não penetram na planta e são lavados com a chuva, voltaram a ser registrados na cultura da soja para aumentar as opções de manejo de doenças. 

Para os próximos anos, a tendência é que a área com a cultura de soja aumente para a região Centro-Nordeste do Brasil, nos estados do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia (Matopiba). O clima quente e úmido dessas regiões favorece a incidência de manchas foliares e também as podridões radiculares. Os patamares de produtividade da cultura têm se mantido estáveis nos últimos anos, mas os problemas de resistência de fungicidas a todos patógenos foliares associados à falta de diversificação podem comprometer a manutenção dessas produtividades ao longo do tempo.


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Referências


CONAB. Série histórica das safras. Disponível em Acesso em: 31 jul. 2019.

KLOSOWSKI, A.C. et al. Detection of the F129L mutation in the cytochrome b gene in Phakopsora pachyrhizi. Pest Manag. Sci., 72:1211-1215, 2016.

SCHMITZ, H.K. et al. Sensitivity of Phakopsora pachyrhizi towards quinone-outside-inhibitors and demethylation inhibitors, and corresponding resistance mechanisms. Pest Manag. Sci., 7:378-88, 2014.

SIMÕES, K. et al. First detection of a SDH variant with reduced SDHI sensitivity in Phakopsora pachyrhizi. J. Plant Dis. Protec., 125:21-26, 2018.

EMBRAPA. Tecnologias de produção de soja – Região Central do Brasil 2014. Londrina: Embrapa Soja, 2013. 265p.

MELLO, F.E. Variabilidade genética e sensibilidade de Cercospora kikuchii, Colletotrichum truncatum e Corynespora cassiicola a fungicidas. 2019. 232f. Tese (Doutorado em Agronomia) - Universidade Estadual de Londrina, Londrina.


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